O caso das laranjas, uma história de mediação

Essa é uma releitura da história das laranjas do livro “Como chegar ao sim” de Willian Ury e outros. Nela podemos perceber a importância da aplicação da mediação até mesmo nas questões mais simples do nosso cotidiano, acompanhe!

Dona Ermínia e seus filhos

Dona Ermínia foi à feira e comprou um abacaxi maduro, meia dúzia de laranjas e meia dúzia de  limões.

Na semana passada, ela havia jogado uma dúzia de laranjas no lixo, pois Henrique e Gustavo, seus filhos, estavam enjoados da fruta.

Então acreditou que meia dúzia dessas já seria mais que o suficiente para passar a semana.

Os meninos estavam chegando à adolescência e começavam a tomar suas próprias decisões.

O paladar de ambos estava mudando e suas experiências na cozinha começavam a ser rotina.

A disputa pelo domínio do território também começou a suscitar pequenas discussões e birras.

Contavam cada batata frita que a mãe colocava no prato de ambos, questionavam para quem ela daria o ovo frito com a gema intacta e um ou outro sempre reclamava quando era o segundo na ordem de chamada, para almoçar ou jantar.

As brigas pelo lugar do sofá, quem ficaria com o controle remoto e quem tomaria banho primeiro estavam tomando o lugar das brincadeiras lúdicas e divertidas, de outrora.

Conflito entre irmãos – como mediar?

Conflitos de irmãos

A mãe observava tudo, e sempre que possível, não intervinha. Deixava que as negociações acontecessem e monitorava a curta distância, com o semblante contemplativo o exercício de civilidade dos filhos.

Cada rapport adequado recebia um sorriso silencioso de aprovação. E a manifestação de egoísmo e egocentrismo recebia o olhar tão fatídico quanto uma rajada de balas de um pelotão de fuzilamento.

Vez por outra, ela entrava na contenda, dava um sermão baseado nas passagens da bíblia e seus grandes homens e mulheres. Então colocava cada um num cômodo diferente e os deixava pensando sobre seus exageros na hora da discussão e as reações desproporcionais que culminavam em conflitos.

Ela vinha observando que Henrique se tornava agressivo algumas vezes, e tentava manipular o irmão.  Para ele, ter razão era mais importante que ser feliz e, muitas vezes, concorria com Gustavo em coisas que não lhe importavam realmente, só para medir forças com este.

Insistia até que o irmão cedesse, e depois nem sabia o que fazer com o objeto da disputa.

Gustavo costumava abrir mão das coisas com muito mais facilidade, para na sequência se fazer de vítima. Ele parecia gostar de perder e usar isso como uma moeda de troca nas suas chantagens emocionais.

Tudo por causa das laranjas?

Naquele dia, os meninos chegaram da escola e enquanto a mãe colocava o almoço, Gustavo foi até a fruteira e pegou todas as laranjas. Henrique levantou-se e foi até o irmão dizendo que ele as queria também. Então Gustavo deu-lhe uma fruta. Enrique disse que queria todas. E antes que a mãe pudesse entender o que estava acontecendo, ambos já estavam aos gritos e empurrões.

Dona Ermínia largou os pratos na pia, recolheu as laranjas e ordenou que os meninos sentassem à mesa.

Gustavo chorava dizendo que ele as viu primeiro e que também as pegou primeiro.

Henrique dizia que ele precisava das laranjas mais que Gustavo.

A mãe então propôs que cada um ficasse com três laranjas, mas os dois disseram que precisavam de todas. Gustavo disse que abriria mão de uma, se o irmão quisesse, mas as outras cinco ele iria utilizar.

Enrique dizia que era mais velho e por isso tinha precedência na escolha das frutas. Gustavo alegava que sempre ele tinha que abrir mão das suas pretensões em favor do outro.

Henrique acusava Gustavo de fazer chantagem emocional para conseguir sempre que a mãe lhe desse razão e lhe favorecesse e enumerava as vezes que abriu mão de algo em  favor “do filhinho da mamãe”.

Gustavo ria nervosamente e rebatia com frases irônicas as colocações do irmão, já com a voz embargada e os olhos marejados.

A mãe olhava e pensava nas frutas que havia jogado no lixo na semana anterior. Não estava entendendo o porquê desse apetite inesperado por meia dúzia de laranjas de uma só vez.

Questões profundas

Mas achou melhor deixar que cada um falasse e procurando apenas fazer uma ou outra colocação para que a conversa pudesse fluir.

No meio da discussão pelas laranjas, que seguia com vozes alteradas, mas sem gritos, surgiram outras questões mais profundas e doídas: Gustavo se sentia preterido pelo irmão que preferia ficar no recreio com seus amigos e não lhe dava atenção.

Henrique disse que o irmão ridicularizava as suas brincadeiras e era ríspido com os amigos que ele lhe apresentava.

Gustavo lembrou de uma vez que o pai comprou uma bicicleta para cada um. Para Henrique na cor vermelha e para ele, azul. Gustavo queria a bicicleta vermelha e Henrique havia gostado mais da azul, mas quando o irmão propôs a troca, ele não quis fazê-la. Depois deixou a bicicleta na chuva e em pouco tempo ela virou sucata.

Cada um aos poucos ia escutando as dores do outro e o tom começou a baixar.

Quando os meninos fizeram uma pausa, a mãe perguntou para qual finalidade ambos precisavam de meia dúzia de laranjas – era uma quantidade muito grande!

Henrique disse que queria fazer um suco. E Gustavo iria utilizá-las para fazer um bolo.

A mãe perguntou se um deles não trocaria as laranjas daquela vez por outro ingrediente, como abacaxi ou limão.

Imediatamente eles disseram que não! Ambos queriam as laranjas, mas o tom de voz já estava mais amigável das duas partes. Um acordo era só uma questão de um pouco mais de diálogo e esperar que os meninos digerissem toda a conversa. Com certeza essa era a oportunidade de resolver muitas outras questões que estavam guardadas e que geravam muito mais sofrimento que a questão das frutas.

O lanche mais valioso de suas vidas

A mãe pediu a Gustavo que lhe mostrasse a receita do bolo. Ele pegou um papel do meio de um caderno e disse que Alice, uma menina por quem ele estava apaixonado, havia lhe dado a receita. Ele queria muito levar um pedaço do bolo no dia seguinte para ela.

Nesse momento Henrique mudou seu olhar. Era a primeira vez que Gustavo falava de uma menina. Ele sentiu certo orgulho do irmão – estava crescendo, e como ele, descobrindo novos sentimentos. Henrique estava pronto para abrir mão do suco de laranjas aquela vez, mas Dona Ermínia começou a rir, enquanto lia a receita em voz alta.

Gustavo não precisa da polpa da fruta para fazer o bolo, e sim da casca!

Ambos teriam o que necessitavam e a briga teria sido em vão, se cada um deles não tivesse saído da discussão entendendo as dores que um provocava no outro, sem saber. E que na verdade, eles só estavam sofrendo porque de fato se amavam verdadeiramente e queriam o melhor daquela relação, mas não sabiam como comunicar isso.

Ao final da tarde, ambos tomaram um delicioso suco de laranjas enquanto provavam o fantástico bolo de suas cascas.

Na manhã seguinte, os irmãos, agora mais cúmplices e próximos, foram à escola conversando sobre como seria a reação de Alice.

Dona Ermínia olhava os dois pela janela da cozinha, orgulhosa. Esse era o melhor lanche que ela havia comido em toda a sua vida.

A mediação, ferramenta para a vida

A cada dia mais é possível perceber que a mediação não se trata apenas de uma carreira promissora ou de mera ferramenta, trata-se de um estilo de vida e uma filosofia para ser levada em todos os momentos das nossas vidas, como pudemos ver nessa história, a atitude mediadora dessa mãe trouxe lições que vão influenciar o resto da vida dessas crianças! Agora imagina a influência dessa cultura nas empresas ou nas escolas, a transformação que vai causar?

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